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domingo, 19 de agosto de 2012

UMA SENSIBILIDADE NOVA


Meu corpo envelhece e com isso perde sua antiga forma, os órgãos que já não são os mesmos aponta um amargo que me escapa a boca, uma nova forma surge no exterior e uma nova sensibilidade aflora intimamente, sinto como se o mundo reclamasse uma nova relação com a natureza e consequentemente comigo mesmo, afinal não estou fora do mundo. Urge também uma nova relação com o tu sensível do outro e do totalmente outro, em suma uma nova estetização da vida.

O meu novo-velho corpo me obriga à contenção, devo negar a expansão ilimitada de meu desejo em nome da sobrevivência. É preciso calar e recuperar o meu ser perdido, olhar o futuro imediato com novos olhos. Obedeci em partes a meu desejo por muito tempo, agora é preciso recuperar o corpo, colocá-lo em sintonia com o meu desejo ou com o meu espírito (que paradoxalmente é mais que meu ser) para reencontrar-me.

Devo encontrar um meio para que o meu corpo não apague meu desejo e que meu desejo não apague o meu corpo, pois é tempo do entardecer. É tempo de humildade....

Em meio  ao conflito com meu corpo-espirito-desejo, vejo um filme menor, previsível em suas conclusões dramáticas e conduzido de forma pouco convencional, mais ainda assim bonito, um filme sobre a natureza, sobre o ser jovem, sobre a sensibilidade do ser, razão e coração, sentir o mundo, sentir o corpo e se embriagar do verde das árvores e do frio vento que sopra, deixando que o desejo tome formas.... NO BOSQUE é um filme assim, sobre impressões, sobre o deixar-se perder em meio à beleza extasiante da natureza e por vezes permitir que os corpos humanos se toquem, foi importante recuperar a reflexividade do meu eu mesmo....

Tenho problemas com filmes experimentais, forçosamente experimentais, de modo que não sei se fiz concessões demais com esse filme, mas ao fim acabei gostando muito dele, tinha um frescor juvenil que alegrava meu coração, tinha natureza, tinha desejo, tinha vida!

J.

terça-feira, 8 de maio de 2012

E eu confesso mais uma vez!



Confissão II: filmes que falam de triângulos amorosos comovem meu espirito.

Acho que estes tipos de filmes que tematizam o relacionamento entre três pessoas ao mesmo tempo revela algo do meu inconsciente, nunca pensei a respeito, mas acho que me parece o tipo ideal de romance que eu devo inconscientemente idealizar, assisti nos últimos tempos vários filmes nesta linha e sempre me emociono de uma maneira estranha, mesmo naqueles esteticamente menos apreciáveis, sinto algo realmente bom e comovente de modo que acabam nevoando meu olhar não podendo avalia-los mias objetivamente.

Confissão III: Douglas Sirk me arrasa emotivamente

Venho sofrendo ultimamente uma crise de carência afetiva violenta e como se isso não bastasse me aventuro a ver filmes prenhes de romances mal  acabados e não satisfeito resolvi ver mais um Douglas Sirk “Desejo Atroz”(1953) sobre um atriz mal-sucedida que resolve voltar a sua cidade natal depois de ter abandonado por anos seu três filhos e marido afim de não machuca-los devido a um romance extra-conjugal numa cidade pequena e conservadora.  

Como não poderia deixar de ser o filme sirkiano é hiperbolicamente dramático e soberbamente dirigido, é apaixonante e desestruturou a mim, contudo é um filme menor pois é muito rápido em suas conclusões, mais ainda assim, derrama paixão por todos os lados, meus olhos encheram de lágrimas em alguns momentos e meu coração disparou: é um filme sobre coragem, sobre a coragem que é preciso ter quando se quer amar.

E eu sou daqueles que AMA!

J.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

De volta à rotina sagrada.


Depois de alguns dias em off devido a uma viagem a minha cidade natal, volto ao meu atual cotidiano. A chegada é sempre difícil. Reorganizar a rotina e por as leituras em dia.

Foram dias iluminados que passei em Aracaju, mesmo que frustrado com um péssimo desempenho no concurso em que participei, esse me deu uma excelente oportunidade nostálgica. Fui tomado por um intenso prazer em rever os amigos da graduação em voltar à boemia outrora tão vivaz em meu coração, mas adormecida nesses dias insones, conversas nostálgicas e tantas outras que foram suficientes para superar o mal-estar e a baixa-estima advinda da situação incômoda.

Para além dessa experiência nostálgica, está de novo e de novo com meus eternos amigos-irmãos sempre é de um gozo carnal-espiritual inconteste, Wesley de Castro, Nina Sampaio, Tiago Oliveira, Wesley Soares, Roberta Fideles, Rafael Alcântara, Vanessa Lacerda, Carlos augusto, Aelton Leonardo e ainda Alessandra, está com vocês é algo incomensurável, inexplicável, cada um com seu dilema, com sua singularidade egocêntrica, cada um sofrendo e sorrindo daquele jeito único que nos faz uma família heterogeneamente homogênea da pesada! Amo vocês de todo coração, alma, corpo, sangue e vida.

Ainda passei o feriado santo com minha família oficial da qual gosto muito. Repito: gosto muito! Mesmo que isso tenha sido pelo esforço do contingente fato de eu ter nascido em meio a estas pessoas das quais sou tão diferente.

E para recomeçar meu cotidiano hoje volto a publicar em meu querido diário virtual, escuto o disco de 1972 de Rita Lee - HOJE É O PRIMEIRO DIA DO RESTO DE TUA VIDA, ótimo álbum ainda influenciado pelo som desconstrutivo dos MUTANTES, se não me engano foi produzido pelo Arnaldo Batista. Com uma mistura de ritmos alucinantes e letras psicodélicas tão marcantes da antiga fase da cantora e já ensaiando em algumas faixas de sua nova fase. Preparo-me para ver o filme do dia enquanto meus companheiros de república tentam instalar um nono roteador para nossa internet, a tarde irei a biblioteca pesquisar e a noite vou dar uma caminhada para sair da sedentarismo e no fim da noite voltar a leitura de CAROL de Patricia Highsmith e assim a vida continua...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Gênio ou apóstolo?


Foi durante o romantismo que o conceito de gênio foi fortemente ligado a uma obra de exceção perpetrada pela natureza. O gênio era um homem que, de forma excepcional, estava acima das potencialidades do homem comum. Influenciado pelo romantismo alemão o filósofo Søren Kierkegaard fez uma distinção entre o apóstolo e o gênio, afirmava que o apóstolo é um caso incrivelmente mais raro que um gênio, já que ser um apóstolo é ir contra a natureza, contra os desejos e vontades intrínsecas a espécie humana e isso é um movimento que se dá no absoluto da subjetividade e muito mais difícil do que a natureza prover um gênio. Digo isso porque quando acabei de ver a pérola cinemática “Um Método Perigoso” tinha certeza que o diretor David Cronenberg era uma espécie de apóstolo do cinema!

J.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Depois dizem que eu sou rabugento!

Em meio a festa da carne Tom Tywker me encanta com um filme bobo, bobo mesmo e o pior é que tinha tudo para ser universalmente perfeito, se não deixasse de lado questões de incrível relevância ética atual como a produção de órgãos via células tronco e a manipulação de cadáveres na confecção de supostas obras de arte e da própria produção artística no mundo contemporâneo e se enveredar apenas para o lado xaroposo de um romance triangular que me tocou, sim, me tocou!

Uma apresentadora de TV e membro de um conselho de ética médica se envolve com um geneticista dono de um laboratório de criação de órgãos e tecidos humanos a partir de células tronco e sintéticas e


ao mesmo tempo que é casada com um fabricante de ideias de artistas, melhor explicando, ele constrói esculturas e instalações idealizadas por artistas e tem câncer testicular e como se essa trama não bastasse ele acaba se apaixonando pelo geneticista que não sabe que o semi-eunuco é casado com a apresentadora.

Tom Tywker me pegou de surpresa, admito que no geral o filme é bobo e mal desenvolvido desperdiça questões basilares que se desenrolam no seio social atual, mas eu sou suscetível a “ não ser determinado pelo biológico” tese central do filme e foi aí que eu caí. E eu devo realmente esta passando por alguma crise existencial pra gostar e um filme cheio de firulas como esse.....

J

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Quando amanhece e o dia chove



Acordei as dez horas da manhã desse carnaval, com uma intensa chuva sintomática, como diria Immanuel Kant “é como se a natureza quisesse”. Tenho certeza me arrasará emocionalmente.... Mas sigamos em frente.....

Ontem recebi a bela visita de um casal inteligente, psicólogos recém formados e distintos em suas personalidades e não hesitei em por um filme do genial cineasta Brian De Palma para comemorar. Na verdade já havia prometido para meu amigo Dante Andrade, sendo De Palma um de seus cineastas favoritos, que não por acaso tem como personagens recorrente pessoas com estados mentais traumatizados, o que significa que é um prato suculento para um debate caloroso. É o que sempre acontece depois de ver um filme ao lado dos meus queridos Dante e Michele, que agradeço bela bela noite!

Alguns historiadores da filosofia costumam afirmar que esta é uma disciplina que se alimenta dela própria, o que eu não concordo por inteiro nem discordo absolutamente. Muitas questões filosóficas surgem a partir de cotextos sócio-culturais e outras tantas a partir da própria história da filosofia que continuamente vai se debatendo, recriando e revisitando a si mesma. O que me faz crer que o cinema, do mesmo modo, se alimenta continuamente de si próprio e ninguém melhor para provar a minha tese que Brian De Palma, não só por referenciar e reverenciar o cinema clássico e principalmente o mestre Hicthcock, mas também por representar a crise estética vivida pelo cinema americano depois dos movimentos modernos que ocorre tanto nos Estados Unidos como na Europa e outros lugares ao redor do globo em meados dos anos 60/70. Claro que o cinema de De Palma comporta vários níveis interpretativos, várias camadas representativas. Mas em Irmãs Diabólicas a crise vivida pelas gêmeas siamesas é construída com as recorrentes marcas registradas do diretor, radicalizando a técnica suspensiva criada pelo mestre do suspense através da tela que se divide em momentos de intensa tensão causando no espectador um sensação quase que insuportável de suspense. A hipérbole que alcança a trama se desvela e se desdobra como recriação intempestiva entre o clássico e o moderno.

A trama do filme, como não poderia ser diferente, é recheada de reviravoltas. Um caso rápido entre uma modelo e um ator negro termina no trágico assassinato do ator e é cometido pela irmã gêmea siamesa da modelo que é emocionalmente abalada depois que as duas foram separadas.... ao mesmo tempo que uma jornalista que mora em um prédio em frente testemunha o assassinato e busca investigá-lo, além do estranho ex-marido da modelo que a persegue continuamente, esse é o máximo que posso descrever dessa trama pra lá de maravilhosamente rocambolesca, tamanha são as surpresas que o roteiro do próprio Brain De Palma proporciona.

Ao fim da sessão estavamos extasiados e todas as teorias freudianas possíveis (rs) foram acionadas para uma belo debate acerca do comportamento humano, dos processos de curas psicanalíticos e ainda deu tempo para uma falar sobre o discurso filosófico do sujeito. Lindo.

Mas o dia amanheceu assim......

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Um Pescoço, uma dor e o medo: reflexões de dias estranhos.


No filme Taiwanês O RIO, o personagem vivificado pelo ator fetiche do diretor Tsai Ming-Liang Lee Kang-sheng mergulha num rio poluído a fim de protagonizar uma cena em um suposto filme, ao passo que depois da execução do trabalho ocasional, uma estranha dor toma conta de seu pescoço. O filme se desenrola entre as visitas do personagem a uma sauna para homens solitários, a busca desmedida pela cura, um céu que teima em desabar em águas e uma incomunicabilidade desconcertante . A narrativa fílmica revela o mundo caótico de uma civilização destroçada em sua identidade pelos processos de produção que foram forjados ao longo da história e que em sua face mais cruel, além de desintegrar o que é sólido e referencial, passa a fragmentar a subjetividade do indivíduo, diferenciando-o e ao mesmo tempo tornando-o homogêneo e passivo no processo hodierno de subjetivação, o personagem pouco reage aos acontecimentos que lhe arrastam no seu cotidiano amorfo e entediantemente dolorido.

Lembro aqui dessa Obra-prima do cinema atual, porque desde que o ano entrou de porta a dentro que sinto uma anomia solitária em meu cotidiano, um mal-estar solapante do mesmo modo qual o personagem Hsiao-kang é imerso. Nas minhas últimas leituras apreciativas revelava que o cuidado de si é uma arma para resistir a máquina impiedosa da política econômica que nos circunda em dias pré-apocalípticos, quiçá apocalíptico, em que estamos vivendo. Em tal leitura, o autor lembrava que os gregos nutriam uma busca pela verdade interior capaz de construir uma interioridade baseada em uma estética da existência e defende que se já foi possível construir uma existência em que o dizer a verdade era imprescindível para a modulação de uma dada subjetividade, é possível encontrar brechas para produzir uma subjetividade que resista as imposições tecno-biológicas que exercem seu poder sobre os corpos. Mas sinto cada vez mais uma amargura tamanha que hoje amanheci com um dor lancinante em meu pescoço, resta-me produzir suspiro estéticos de existência ainda que virtuais....

e sejam bem-vindos.....

J.